A NATO em Parga: máis alá das manobras

 
Nada permite supor que, nos próximos tempos, não se produzam no nosso país novas manobras e simulações de guerra, sobretudo quando a emergência de novos atores principais no plano geopolítico ameaça a hegemonia do império — indiscutida durante décadas — e a miragem do mundo unipolar que dava sustento prático à sua ideologia ultracapitalista.

Óscar Valadares.

Há uns dias, a NATO realizou manobras de combate em Parga, Guitiriz. Participaram nelas 800 militares que tinham como objetivo despregarem-se no cenário de um país ocupado e analisar os erros da operação para os corrigir. Nada transcendeu, porém, dos resultados — como era de esperar. Antes ao contrário, a nova passou como uma exalação, quase invisível entre a opacidade da sua preparação, que colheu a contrapé as organizações políticas e sociais que na Galiza se opõem à militarização e à própria NATO, e a vergonhosa aquiescência dos poderes aos que se lhes enche o peito com os uniformes, as fanfarras, a bandeira e o facto de a Brilat de Figueirido estar — neste momento — ao comando de uma das VJTF, as forças de «muito rápida intervenção» (sic) da NATO.

As manobras de Parga, por enquanto, tampouco podem ser consideradas de jeito isolado, porque por mui desnecessárias e graves que sejam, por si próprias, não terminam em si. Antes ao contrário: fazem parte de um contínuo de militarização acelerada do nosso país com duas características que o tornam ainda mais perverso. Primeiro: que se serve de convénios assinados durante a ditadura franquista que não foram revisados pola farsa da transição e que são invocados à conveniência de um governo, o espanhol, que faz méritos para jogar algum papel no cenário geoestratégico e sobressair como seja entre os membros da aliança atlântica — seguindo a mesma lógica da infame foto das Açores. Segundo: que não se limita a esse campamento militar durante anos em desuso, senão que se alarga sobre outros pontos do país e que configura uma rede que aqui ninguém pediu e que, com efeito, nada de beneficioso traz para o nosso país e os nossos interesses.

Depois de tudo, o aeródromo de Rozas em que são provados os drones israelitas Searcher II (que nos disseram que eram para uso civil, mas que participaram, não há nem um ano, na Trident Juncture com a que a NATO queria exibir força bruta frente à Rússia); a base militar de Figueirido e os seus conflitos com o monte comunal à sua volta e também o porto de Ferrol, que é de uso preferencial para a NATO e que pode, na prática, ser reconvertido en base militar quando lhes convir aos senhores da guerra de Washington e Bruxelas estão aí porque Espanha quer, não porque queiramos nós. E muito menos porque queiram as vizinhas desses lugares.

E não é só que o Estado espanhol decida ceder terrenos na Galiza para estes ensaios de agressão. Por outras palavras, não se trata só das moléstias causadas à vizinhança de Parga, neste caso, que viu como polos caminhos de serviço e polas pistas florestais passavam constantemente jeeps e tanquetas e como à sua volta, à beira das suas casas, eram instaladas concertinas e equipamentos de morteiro para os exercícios de tiro. É que os ensaios, por si próprios, nos metem, como povo, na dinâmica da bandidagem internacional e na da expansão do imperialismo e nos tornam cúmplices, por essa via, das agressões que estão hoje em curso, com foco especial para a Síria, e das que venham num futuro próximo — visto que a mesma essência da NATO é a agressão militar.

Nada permite supor que, nos próximos tempos, não se produzam no nosso país novas manobras e simulações de guerra, sobretudo quando a emergência de novos atores principais no plano geopolítico ameaça a hegemonia do império — indiscutida durante décadas — e a miragem do mundo unipolar que dava sustento prático à sua ideologia ultracapitalista. É evidente, nesse cenário, que a necessidade dos Estados Unidos e, de jeito subsidiário, da União Europeia e doutros países como o Canadá ou a Turquia, de demostrarem a sua musculatura de metralha não se vai moderar. E por isso tampouco faz falta análise demasiado apurada para compreender que o número destas ocupações militares no nosso país — continuadas ou intermitentes, para exercícios ou para cousas mais sérias — não fará outra cousa que aumentar se não nos dotarmos, como povo, de um Estado soberano que possa situar-se à margem do imperialismo e, eventualmente, contribuir para essa multipolaridade.

 

OTAN: uma história de violência

O que poderia parecer uma transformação de base, da originária defesa mútua para a atual modelo de agressão sistemática, não é outra cousa que o desmascaramento dos princípios reais da “aliança”

Óscar Valadares

Hoje, 65 anos após a sua fundação, falar da OTAN equivale a falar do papel que os Estados Unidos jogam no cenário da geopolítica e da bandidagem em escala global. É certo que nela não estão apenas os Estados Unidos, mas também o é que dos 28 membros do Tratado do Atlântico Norte, são eles e os seus interesses oligárquicos que dirigem a totalidade das operações. Criada originariamente em 1949 em vista a um futurível ataque da União Soviética que nunca se produziu, mas que os meios capitalistas pronosticavam como parte da estratégia do medo ao comunismo, o que também é certo é que a história de violência da OTAN se constrói unicamente com capítulos de agressão. Uma história longa e intensa que a levou a ser responsável por 70% do gasto militar planetário, e a ter um orçamento para guerras que representa, cada ano, 2% do PIB mundial.

O que poderia parecer uma transformação de base, da originária defesa mútua para a atual modelo de agressão sistemática, não é outra cousa que o desmascaramento dos princípios reais da “aliança”, que apontala sobre uma supremacia militar incontornável tanto a usurpação dos minguantes recursos naturais em todo o planeta como o bloqueio à aparição de qualquer bloco antagónico, anti-imperialista.

Dizer que, a todos os efeitos, a OTAN é hoje o braço armado do império pode resultar repetitivo, mas nem por acaso se trata de um cliché: é só deitar uma olhada pola sua história de violência global aberta após a queda da União Soviética, o que lhe permitiu passar dos simples exercícios exibicionistas para a fase de alargamento para o leste da Europa, à caça dos Estados do antigo pacto de Varsóvia que deviam ser integrados ao passo da instalação do capitalismo em cada um deles. Não é por acaso que a sua primeira intevenção fosse na Bósnia para apoiar a queda da República Federal da Iugoslávia, aliás sem ter sido previamente solicitada por nenhum membro invocando aquilo da defesa coletiva.

Desde aquele 1994, não tem deixado de agredir países e povos, nem de abranger cada vez mais área de influência. Kosova em 1999, Afeganistão em 2003, o Iraque em 2004, a Líbia em 2011, as ameaças contra a Síria em 2013 — só não materializadas pola manobra diplomática russa — e uma mais do que previsível próxima intervenção na Ucrânia contra o Donbass antifascista são apenas o seu rasto oficial de sangue e fumo, não por casualidade focando sempre áreas de antiga influência soviética e do velho movimento dos países não alinhados.

Mas a sombra do império é muito mais alargada do que as intervenções militares. Em primeiro lugar, pola imensa rede de bases militares que capacitam a organização para intervir em qualquer lugar do planeta. A autolimitação geográfica originária, a norte do trópico de Câncer, não impede essa expansão da sua infraestrutura: por exemplo, as 23 bases na América do Sul, a maioria delas administradas diretamente polos Estados Unidos em linha com o processo latinoamericano de integração anti-imperialista. A realidade que essas e outras bases revelam é apenas a evidência de a OTAN ser, exclusivamente, a máscara com que os EUA e em segunda instância os seus parceiros diretos europeus agem militarmente muito além da área originariamente definida, em relação direta com o resto de infraestrutura militar norte-americana, que conta com mais de um milhar de instalações de todo tipo repartidas em 63 países, com alcance global.

E o braço continua a se armar e a crescer, colocando tropas em 165 países. Muitas vezes sob guarda-chuvas (só formalmente) das Nações Unidas, ao ponto de se terem tornado confundíveis para muitas pessoas. Outras vezes aproveitando as operações militares para deixar nos territórios intervindos novas instalações, como no Iraque ou no Afeganistão, que abandonam de iure mas onde permanecem de facto, dentro da estratégia de controlo da Ásia Central. E outras vezes com a assinatura de parcerias de segurança negociadas em secreto (via serviços de inteligência) que permitam 1) integrar países neutrais do antigo grupo dos Não Alinhados, com especial atenção à Índia, 2) promover outras associações militares análogas que permitam ultrapassar os limites formais da OTAN (Golfo Pérsico, Ártico, Báltico, Japão), e 3) continuar com a OTANização da ASEAN (Sudeste Asiático) e da União Africana e com o controlo total do Mediterrâneo (apenas quebrado pola base russa na Síria e a saída da Crimeia). O resultado desta fase expansiva, quando se confirmar o passo formal na África e na Ásia do Sudeste, será a integração de mais 60 novos membros em organizações direta ou indiretamente dirigidas polos Estados Unidos e a assinatura, em paralelo, de tratados de livre comércio que permitam a introdução maciça dos produtos americanos de modo a combater a sua própria crise de supremacia económica.

Porém,mesmo com a inquestionável expansão imperial e em meio à fase de máxima aceleração dessas integrações forçadas, continua a ser impossível falarmos de um mundo unipolar. A recuperação de uma posição internacional de força na Rússia pós-soviética e a recente priorização que a China está a conceder às suas relações internacionais após anos de certa introspeção, unido às fluentes relações entre ambas as potências e aos seus interesses comuns neste plano, que não passam de modo nenhum por se submeter a Ocidente, desenham um cenário de blocos antagónicos como não se via desde a implosão da URSS.

Sessenta e cinco anos após a sua fundação, e tendo já demonstrado que o conceito de autodefesa não era mais do que uma estratégia de propaganda polo medo potenciada polos governos capitalistas ocidentais, o que fica claro é que a OTAN continua a fazer o que sempre fez: reforçar e alargar a liderança norte-americana, por diversas vias e sempre de maneira maquiavélica, incluindo falsas revoluções de cores, golpes de Estado ou atos de falsa bandeira como o último ataque a um avião civil sobre território das repúblicas populares do Donbass. O procedimento é claro, circundar a Rússia, isolar a China e, eventualmente, dinamitar o seu novo entendimento. O objetivo também: continuar assegurando o domínio norte-americano por meio da supremacia da força militar.

Óscar Valadares é sindicalista e activista internacionalista en Mar de Lumes.

A Venezuela deve resistir as provocações

o roteiro do imperialismo na Venezuela deveria resultar-nos já perfeitamente conhecido: trata-se do mesmo que já empregaram para as invasões da Líbia e da Síria

Óscar Valadares*

A situação em Venezuela é gravíssima. Não só pelos tiroteios contra a imprensa não favorável a Capriles. Não só pelos ataques a tiros conta centros médicos. Não só pelos incêndios provocados em locais do PSUV, com militantes no interior. Nem sequer pelos assassinatos políticos de militantes e simpatizantes chavistas, que aumentam a cada hora desmascarando a crua caveira do capitalismo e da sua maquinaria imperialista, e que, por si próprios, num cenário menos alienado, deveriam estar a horrorizar a opinião pública do mundo, tão espúria ou inocentemente preocupada pelas liberdades civis e a democracia em abstrato. Não é o mais grave que Capriles e os seus gorilas se tenham lançado ao festim da destruição e da morte anunciando pelas ruas um pretenso fraude eleitoral sem terem sequer solicitado em momento nenhum a auditoria dos votos ao Centro Nacional Eleitoral. Nada disto é o mais grave. Nem sequer o mais triste.

O mais grave é que, nos planos dos seguidores de Capriles, alentados pelos Estados Unidos de maneira explícita e também pela UE, o FMI, o BM e governos pró-capitalistas de maneira mais velada —mais covarde—, a situação não vá deixar de escalar e de se agravar. Por que? porque o estado de excepção que as bandas armadas do capital estão a provocar na Venezuela não é o objetivo, mas apenas a ferramenta. Por outras palavras: o que se procura não é o caos do país, mas que esse caos venha provocar a resposta de um exército posicionado publicamente com o presidente Maduro, de maneira a materializar a escusa perfeita para os “democratas” do primeiro mudo darem a ordem de intervir –leia-se, invadir– a república bolivariana.

Ainda assim, tampouco isto é o mais surpreendente. Porque, nesta altura, o roteiro do imperialismo na Venezuela deveria resultar-nos já perfeitamente conhecido: trata-se do mesmo que já empregaram para as invasões da Líbia e da Síria, e é o que presumivelmente irão empregar para as invasões da Coreia Popular-Democrática e do Irã, que chegarão, mais cedo ou mais tarde, nessa lógica devoradora e insaciável do lucro perante tudo. Enfim: ei a segunda versão do roteiro do Iraque, melhor calculado e com os erros de opinião pública convenientemente corrigidos, e mais operativo do que nunca antes, graças, ademais, à participação nojentamente entusiástica dos meios mainstream (inclusive dos que dizem estar a representar a consciência crítica) que, hoje, apenas falam de “distúrbios” enquanto nos assolam e nos alienam ainda mais com dados sobre as vidas dos tristes mortos da maratona de Boston.

Frente a isto, a Venezuela que decidiu continuar a construção do socialismo bolivariando deve resistir as provocações. O PSUV sabe-o. Haverá tempo para a justiça. O primeiro é, lá, assegurarem a inviolabilidade do país. E é a nós, no exterior, por enquanto, que cabe continuarmos a informar e a difundir a barbarie capitalista, agora na Venezuela, sempre no mundo.

*Óscar Valadares é militante de Mar de Lumes - Comité Galego de Solidariedade Internacionalista

Feijóo à fuga

Feijóo fugido, o governo desaparecido, a troika ocultada, o programa fechado sob sete chaves, o capital a esmendrelhar-se de tanto rir e nós, polo momento, sem as ferramentas que permitam sair deste jogo

Óscar Valadares

Parece que seja cousa dos grandes governantes: é virem as duras e esconderem a cabeça, encerrarem-se num bunker, viajarem às Américas: desaparecer, enfim, que tudo é o mesmo. Às Américas vai Feijóo, que diz ser uma viagem institucional à que a oposição chama eleitoral e que, na realidade, esconde uma fugida das responsabilidades, dos focos e dos microfones. O objetivo último é, embora o despiste geral, libertar-se da má imagem que dá estar o dia todo a sair nas rádios, na televisão e nos jornais visualizando a despreocupada carência de iniciativa política para combater aquela crise com que ele, dizia, ia acabar em 45 dias. Esconder-se é o próprio, mas não só dele.

Escondido está, todo o mundo sabe, o verdadeiro programa político do PP, que se nos vai revelando lentamente, como se se tratar de uma má história publicada por fascículos. Esconde-se o presidente do governo de Madrid, fugazmente saído esta semana passada do seu esconderijo para nos espancar com mais um golpe económico e social e para manusear um códice do século XII num espetáculo ridículo de adoração que, por certo, custou mais de um quarto de milhão de euros de dinheiro público, nosso. Às escondidas vai até a troika, de negro e de gris, polos grises corredores dos ministérios da Fazenda e da Economia. E também se escondem os senhoritos do NGB, que fugazmente, e para surpresa de muitos, saíram para pedir perdão com essa parafernália que no Estado espanhol se está a pôr na moda para salvar os móveis simulando arrependimento polo que sempre se fez e se continuaria a fazer se não fossem as evidências criminais que se nos revelam, cada vez, com maior insistência.

É claro que, de todos modos, de nada serve sair do rocho para pedir desculpas, porque os tecnocratas do BM e do FMI não vão mudar de fim nem de aparência, porque Castellano e os outros ladrões da cova não vão devolver o roubado assim tão fácil nem vão deixar de vender-nos lixo financeiro quando tenham a possibilidade, porque os que anunciaram proteção para o património em mãos da igreja, simplesmente, não o vão devolver ao povo, e porque, se Feijóo saísse a pedir desculpas com aquele famoso contrato com a cidadania na mão, também não terminaria com a indecência do paro, com a injustiça do IVA, nem muito menos com a demolição trágica do Estado social. Ora, a leitura que se deve tirar disso não é só a incapacidade de Feijóo, neste caso. Por trás disso há mais: em primeiro lugar, uma questão puramente ideológica, de visão do problema e de proposição da solução; e em segundo lugar, ademais, uma impossibilidade circunstancial, um constrangimento que impede qualquer iniciativa que mude a situação de raiz em em favor da maioria.

A respeito do problema ideológico, disse um amigo, não há muito, que a única crise que aqui sofremos é a crise da esquerda, e que o resto se chama capitalismo. O que cumpre, portanto, não é sairmos da crise, mas do capitalismo. Mas isso, evidentemente, não o vai fazer Feijóo nem a direita económica de PPSOE, porque a sua fidelidade e a sua crença irracional no capital estão na linha de uma posição ideológica bem determinada: a de quem está conforme com este sistema no que, para já, não há problema, e no que, do seu ponto de vista, a crise é um episódio inevitável e necessário que, como as purgas outrora, limpa dolorosamente os excessos do corpo (neste caso, económico); um processo, uma penitência que deve ser sofrida com resignação, em silêncio, sem trejeitos nem protestos. Com esta posição ideológica, chamar crise a este capitalismo que sofremos é pura circunstância, mandada polo mesmo imperativo eleitoral que obriga a mostrar-se compungido cada vez que se executa mais um curte no ensino, na sanidade, nos salários ou no que for, e a pedir um esforço para sair juntos da crise. Pura aparência.

Em segundo lugar, a respeito do constrangimento circunstancial e em descargo de Feijóo e os seus sequazes, convém notar que, com independência de quem governe, a situação será muito parecida com a que já temos enquanto careçamos de soberania real, enquanto continuemos pegados à ultraliberal UE, que hoje é mais do que nunca dos mercados e dos mercadores, e enquanto tenhamos tolhida polo Estado espanhol a nossa capacidade para pormos em andamento as políticas verdadeiramente incisivas que imaginemos à contra das que nos aplicam.

Em resumo: Feijóo fugido, o governo desaparecido, a troika ocultada, o programa fechado sob sete chaves, o capital a esmendrelhar-se de tanto rir e nós, polo momento, sem as ferramentas que permitam sair deste jogo que já matava milhões na África, na Ásia e na América do Sul, e que agora mata também no primeiro mundo, para surpresa de tantas e tantos.

Óscar Valadares é sindicalista da CIG e militante do MGS

Será Cuba capaz de se converter na exceção?

Por mais que a Assembleia Geral da ONU possa ser contrária, a resolução do bloqueio, que, como ação punitiva é reconhecido como “ato de guerra” desde a Conferência Naval de Londres de 1909, corresponde unicamente ao Conselho de Segurança da ONU, onde os Estados Unidos têm também o tão democrático direito de veto.

Óscar Valadares

Ontem cumpriram-se 50 anos do embargo económico, comercial e financeiro contra Cuba que os Estados Unidos, sob a presidência do tantas vezes defendido pela esquerda John Fitzgerald Kennedy, decretaram em 1962. Embora a condena formal da ONU, até em 17 ocasiões, a prepotência norte-americana não só impediu que o embargo fosse anulado, como também favoreceu que fosse convertido em lei federal estado-unidense em 1992 e 1995; que, em 1999, o presidente Bill Clinton o ampliasse novamente e que, durante o governo de Bush filho, em 2002, fossem recrudescidas as sanções contra quem comerciar com a ilha. A proibição não só se impõe, aliás, às empresas ianques: está proibido que terceiros países vendam produtos nos EUA que contenham matérias primas cubanas; está proibido que terceiros países vendam em Cuba produtos que tenham patentes ianques (e não é por acaso que os EUA possuem, com diferença, o maior número de patentes do mundo); está proibido que qualquer banco possa abrir uma conta bancária em dólares americanos a pessoas individuais ou jurídicas cubanas; e está proibido que empresas de terceiros países possam investir ou comerciar com Cuba sob o suposto de que isso poderá contradizer as reclamações dos EUA sobre o povo cubano.

O resultado desta política imperialista de 50 anos de duração é, segundo relatório publicado pelas Nações Unidas em 2005, um prejuízo superior a 100 mil milhões USD que, tendo presente a depreciação da moeda ianque, seria de 975 mil milhões USD. A ONU tem protestado e promovido diferentes votações relativas ao embargo, que sempre resultaram muito maioritariamente contrárias à política ianque. Porém, por mais que a Assembleia Geral da ONU possa ser contrária, a resolução do bloqueio, que, como ação punitiva é reconhecido como “ato de guerra” desde a Conferência Naval de Londres de 1909, corresponde unicamente ao Conselho de Segurança da ONU, onde os Estados Unidos têm também o tão democrático direito de veto.

Com a chegada de Barack Obama ao governo dos EUA, foram muitos os que falaram sobre a esperança do fim do bloqueio. Pois bem: Obama recebiu o prémio Nobel da Paz, mas nada fez para anular o embargo, como nada fez, em geral, para nada que tenha a ver com a solução dos conflitos em que os EUA têm parte ativa - isto é, todos. Ainda mais, os fundamentalistas anticubanos continuam a reproduzir-se nos Estados Unidos, tanto entre os republicanos como entre os democratas, que acusam Obama de permitir determinadas viagens pontuais de norte-americanos a Cuba (permissos que não questionam a proibição geral) e que eles identificam como continuadas e perigosíssimas “concessões unilaterais” ao comunismo.

É provável, ademais, que durante os próximos meses, na sequência da campanha às presidenciais, tanto os democratas como os republicanos endureçam as suas posições a respeito da política internacional que já deram bons resultados no triunfo republicano nas últimas eleições ao Congresso. Em agosto de 2011, Ileana Ros e Mario Díaz Balart, dois dos principais incendiários anti-cubanos, propuseram que os Estados Unidos utilizem em Cuba a estratégia que utilizaram em Líbia: “Por que teria Cuba que ser a exceção?” — disseram. Já começaram a produzir-se os primeiros casos de contaminação informativa que reproduzem exatamente o modelo líbio: acusar Cuba de repressão policial contra opositores ao governo como as Damas de Branco, assegurando a utilização de gases lacrimógenos e anti-distúrbios contra mobilizações operárias em Santiago, promovidos, por certo, pela Seção de Interesses Norte-Americanos (SINA), que opera na ilha seguindo o programa marcado desde Washington precisamente pelos republicanos.

Enfim: já sabemos como funciona o imperialismo das transnacionais, sejam dos EUA ou da UE. E nada há que nos assegure que não vaiam tentar com Cuba o que acabamos de ver em Líbia, chegando mesmo a dividir a pobre e perdida esquerda europeia, uma parte da qual aplaudia entusiasticamente aquela última agressão imperialista. Será Cuba capaz de se converter na exceção?

Óscar Valadares é militante do MGS

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