O ano das máscaras que caem ou ‘o rei vai despido’

Com o poder executivo e o poder judicial desmascarados, a lógica obriga a considerar comprometido o conjunto do estado. Um estado, o espanhol, que descansa a sua legitimidade hoje no conceito de uma transição à democracia há quarenta anos que significava cortar pacificamente com a ditadura, mas que, na prática, consistiu mais bem em disfarçar os seus poderes fáticos, sem tocá-los demasiado, para que não se opusessem à reforma estética da fachada do edifício. E isso tem consequências.

Óscar Valadares

Se uma cousa tem de bom a quantidade enorme de tinta vertida e de horas de emissão à volta do conflito catalão e da política bifronte do Estado espanhol ao respeito — repressiva por um lado, negadora da realidade polo outro — é que todo o mundo está a ficar perfeitamente retratado conforme o drama avança e os atores e atrizes vão dizendo as suas frases. Quem tirar neste momento uma fotografia fixa terá já uma imagem de máscaras caídas. Ou, mais claramente: uma revelação similar àquela do conto de H. C. Andersen em que uma criança apontava para o rei e anunciava que ia despido.

O primeiro a ficar despido foi o governo espanhol. Desmascarado, o que ficou à vista foi a incapacidade para respeitar a vontade política da maioria catalã — aliás, da sua maioria mais mobilizada e activa — e a necessidade urgente de reconquistar o poder institucional e o seu aparato. E aqui há que entender «reconquistar» no sentido de fazer-se dono dele, possuí-lo efetivamente e, portanto, poder manuseá-lo para o interesse geral da operação ou para interesses mais concretos de cada momento. Por exemplo, lançando a BRIMO a atropelar manifestantes para provocar uma reação violenta que depois seja utilizada para «legitimar» toda a operação e, de passada, para romper a linha de cumplicidades da população com os Mossos d’Esquadra que se negaram a espancar votantes durante a jornada de 1 de Outubro.

O seguinte foi o sistema judicial. É verdade que a judicialização da política no Estado espanhol não é qualquer novidade. Ao contrário, é um recurso bem à mão de organizações da ultradireita e do grande capital para, por exemplo, penalizar de novo o aborto, ilegalizar organizações políticas incómodas ou tombar leis aprovadas em parlamentos nacionais contra a pobreza energética ou contra os espectáculos de maltrato animal. Mas a deriva judicial do conflito na Catalunha promovida desde o governo, inclusive deitando ao lixo a mínima estética da separação de poderes, tem deixado acima da mesa situações de gravidade sem muito precedente. Por exemplo, a invenção por parte do Tribunal Supremo do direito penal com efeito boomerang: se a polícia emprega a violência contra manifestantes significa necessariamente que quem se manifesta é violento e, portanto, é lícita a sua repressão. Ou, por exemplo, a retirada de uma euro-ordem de detenção de exiliados em função dos interesses da minoria parlamentar na Catalunha para evitar a investidura de Carles Puigdemont como presidente. E isso para não falar já dos gritantes casos de prisão sem juízo de líderes políticos e sociais que se vêm somar à lista de presos e presas políticas no Estado espanhol — que já existia, mas que com estes novos casos ficou à vista mesmo de quem até agora preferia não ver.

Com o poder executivo e o poder judicial desmascarados, a lógica obriga a considerar comprometido o conjunto do estado. Um estado, o espanhol, que descansa a sua legitimidade hoje no conceito de uma transição à democracia há quarenta anos que significava cortar pacificamente com a ditadura, mas que, na prática, consistiu mais bem em disfarçar os seus poderes fáticos, sem tocá-los demasiado, para que não se opusessem à reforma estética da fachada do edifício. E isso tem consequências.

O resultado é um Estado em dous níveis que permite encher o peito com uma retórica a cavalo entre sócio-liberal e conservadora-liberal e, ao mesmo tempo, conservar mais ou menos oculta uma ossamenta filofascista — no mínimo — que deita por terra o relato principal quando fica exposta. Um estado profundo que mantém uma monarquia tão desprestigiada que teve que dar passo à seguinte geração para ter a mínima hipótese de se perpetuar; que conserva juízes adeptos ao nacional-catolicismo; que emprega polícia política com abundância de torturadores e impunidade; meios de comunicação que reproduzem o franquismo sociológico aprendido durante mais de quatro décadas; um exército que se anuncia disposto a pôr os tanques nas ruas; uma política de perseguição de objetivos internos e repressão de baixa intensidade; e grupos de choque aparentemente sem qualquer laço com essa estrutura, mas que agem sempre na direção dos seus interesses, impedindo atos públicos, atacando simbologia catalã, queimando locais do inimigo ou proporcionando provas falsas de actividades violentas do independentismo que desemboquem de novo no círculo da repressão «legítima» por parte do Estado. Todo isto pode ser visto em marcha — se é que há verdadeira vontade de ver — na Galiza, em Euskal Herria ou no conjunto dos Països Catalans, e também lá onde o Estado detectar um problema de fundo que o questionar, por exemplo na luta polo soterramento dos trilhos em Múrcia que já não é só polo soterramento dos trilhos ou, antes, na luta do Gamonal, que já ninguém parece lembrar. Mas foi a decisão maioritária do povo catalão de construir um novo marco próprio e independente o que, efetivamente, colocou isto a olhos de todo o mundo de uma vez para todas, ao ponto de que, hoje, negá-lo seja um exercício de cinismo cúmplice.

O último a ficar despido foi a esquerda espanhola, que também é Estado, por sinal. De novo, quem quiser olhar, já foi quem de ver há tempo que a insistência dessa esquerda em conservar o marco espanhol, em não criticá-lo a sério, significava uma aceitação de base de todas as contradições, por mais que em público se diga o contrário. É o que tem a retórica, que pode ser apontada em qualquer direção com independência da realidade. É grave que os chamados ao diálogo desaparecessem tão asinha como o Estado despejou a Generalitat e começou a encarcerar ou mandar gente para o exílio; é grave que essa esquerda que dizia querer solucionar o problema pola via política permaneça agora no mais absoluto silêncio, apenas movendo levemente a cabeça em sinal de desaprovação pola violência dos últimos dias, mas sem abrir a boca a respeito da questão de fundo. Mas mais grave é pretender que pode haver soluções políticas num Estado edificado à volta de «Una, grande y libre» e «Viva la muerte» que não sejam a ruptura republicana dessas nações com o Estado. A popularização nas redes sociais de expressões como «esquerda tricórnio», que não deixam de ser uma picada ocorrente para agudizar as contradições, mas que não existiam há apenas meses, serve de espelho a um avanço significativo na tomada de consciência de onde é que estamos. E isso não se explica sem o conflito na Catalunha.

Fica por ver, ainda, se esta «luz catalã» que tirou as máscaras do Estado para milhares de pessoas — não só na Catalunha — que antes confiavam razoavelmente no sistema acaba também deitando-se sobre o verdadeiro rosto oligárquico e neoliberal da União Europeia. O que é seguro é que cada vez para mais gente resulta mais claro que não há solução possível sem passar pola independência, que propostas confederais ou federais som um canto de sereia impossível de concretar no campo de jogo descrito acima, e que o Estado não se vai desligar dos seus ossos por mais que a maioria no Congresso dos Deputados ou no Senado venha eventualmente a mudar de cor. A saída está indicada. A janela de oportunidade, aberta.

A NATO em Parga: máis alá das manobras

Nada permite supor que, nos próximos tempos, não se produzam no nosso país novas manobras e simulações de guerra, sobretudo quando a emergência de novos atores principais no plano geopolítico ameaça a hegemonia do império — indiscutida durante décadas — e a miragem do mundo unipolar que dava sustento prático à sua ideologia ultracapitalista.

Óscar Valadares.

Há uns dias, a NATO realizou manobras de combate em Parga, Guitiriz. Participaram nelas 800 militares que tinham como objetivo despregarem-se no cenário de um país ocupado e analisar os erros da operação para os corrigir. Nada transcendeu, porém, dos resultados — como era de esperar. Antes ao contrário, a nova passou como uma exalação, quase invisível entre a opacidade da sua preparação, que colheu a contrapé as organizações políticas e sociais que na Galiza se opõem à militarização e à própria NATO, e a vergonhosa aquiescência dos poderes aos que se lhes enche o peito com os uniformes, as fanfarras, a bandeira e o facto de a Brilat de Figueirido estar — neste momento — ao comando de uma das VJTF, as forças de «muito rápida intervenção» (sic) da NATO.

As manobras de Parga, por enquanto, tampouco podem ser consideradas de jeito isolado, porque por mui desnecessárias e graves que sejam, por si próprias, não terminam em si. Antes ao contrário: fazem parte de um contínuo de militarização acelerada do nosso país com duas características que o tornam ainda mais perverso. Primeiro: que se serve de convénios assinados durante a ditadura franquista que não foram revisados pola farsa da transição e que são invocados à conveniência de um governo, o espanhol, que faz méritos para jogar algum papel no cenário geoestratégico e sobressair como seja entre os membros da aliança atlântica — seguindo a mesma lógica da infame foto das Açores. Segundo: que não se limita a esse campamento militar durante anos em desuso, senão que se alarga sobre outros pontos do país e que configura uma rede que aqui ninguém pediu e que, com efeito, nada de beneficioso traz para o nosso país e os nossos interesses.

Depois de tudo, o aeródromo de Rozas em que são provados os drones israelitas Searcher II (que nos disseram que eram para uso civil, mas que participaram, não há nem um ano, na Trident Juncture com a que a NATO queria exibir força bruta frente à Rússia); a base militar de Figueirido e os seus conflitos com o monte comunal à sua volta e também o porto de Ferrol, que é de uso preferencial para a NATO e que pode, na prática, ser reconvertido en base militar quando lhes convir aos senhores da guerra de Washington e Bruxelas estão aí porque Espanha quer, não porque queiramos nós. E muito menos porque queiram as vizinhas desses lugares.

E não é só que o Estado espanhol decida ceder terrenos na Galiza para estes ensaios de agressão. Por outras palavras, não se trata só das moléstias causadas à vizinhança de Parga, neste caso, que viu como polos caminhos de serviço e polas pistas florestais passavam constantemente jeeps e tanquetas e como à sua volta, à beira das suas casas, eram instaladas concertinas e equipamentos de morteiro para os exercícios de tiro. É que os ensaios, por si próprios, nos metem, como povo, na dinâmica da bandidagem internacional e na da expansão do imperialismo e nos tornam cúmplices, por essa via, das agressões que estão hoje em curso, com foco especial para a Síria, e das que venham num futuro próximo — visto que a mesma essência da NATO é a agressão militar.

Nada permite supor que, nos próximos tempos, não se produzam no nosso país novas manobras e simulações de guerra, sobretudo quando a emergência de novos atores principais no plano geopolítico ameaça a hegemonia do império — indiscutida durante décadas — e a miragem do mundo unipolar que dava sustento prático à sua ideologia ultracapitalista. É evidente, nesse cenário, que a necessidade dos Estados Unidos e, de jeito subsidiário, da União Europeia e doutros países como o Canadá ou a Turquia, de demostrarem a sua musculatura de metralha não se vai moderar. E por isso tampouco faz falta análise demasiado apurada para compreender que o número destas ocupações militares no nosso país — continuadas ou intermitentes, para exercícios ou para cousas mais sérias — não fará outra cousa que aumentar se não nos dotarmos, como povo, de um Estado soberano que possa situar-se à margem do imperialismo e, eventualmente, contribuir para essa multipolaridade.

 

OTAN: uma história de violência

O que poderia parecer uma transformação de base, da originária defesa mútua para a atual modelo de agressão sistemática, não é outra cousa que o desmascaramento dos princípios reais da “aliança”

Óscar Valadares

Hoje, 65 anos após a sua fundação, falar da OTAN equivale a falar do papel que os Estados Unidos jogam no cenário da geopolítica e da bandidagem em escala global. É certo que nela não estão apenas os Estados Unidos, mas também o é que dos 28 membros do Tratado do Atlântico Norte, são eles e os seus interesses oligárquicos que dirigem a totalidade das operações. Criada originariamente em 1949 em vista a um futurível ataque da União Soviética que nunca se produziu, mas que os meios capitalistas pronosticavam como parte da estratégia do medo ao comunismo, o que também é certo é que a história de violência da OTAN se constrói unicamente com capítulos de agressão. Uma história longa e intensa que a levou a ser responsável por 70% do gasto militar planetário, e a ter um orçamento para guerras que representa, cada ano, 2% do PIB mundial.

O que poderia parecer uma transformação de base, da originária defesa mútua para a atual modelo de agressão sistemática, não é outra cousa que o desmascaramento dos princípios reais da “aliança”, que apontala sobre uma supremacia militar incontornável tanto a usurpação dos minguantes recursos naturais em todo o planeta como o bloqueio à aparição de qualquer bloco antagónico, anti-imperialista.

Dizer que, a todos os efeitos, a OTAN é hoje o braço armado do império pode resultar repetitivo, mas nem por acaso se trata de um cliché: é só deitar uma olhada pola sua história de violência global aberta após a queda da União Soviética, o que lhe permitiu passar dos simples exercícios exibicionistas para a fase de alargamento para o leste da Europa, à caça dos Estados do antigo pacto de Varsóvia que deviam ser integrados ao passo da instalação do capitalismo em cada um deles. Não é por acaso que a sua primeira intevenção fosse na Bósnia para apoiar a queda da República Federal da Iugoslávia, aliás sem ter sido previamente solicitada por nenhum membro invocando aquilo da defesa coletiva.

Desde aquele 1994, não tem deixado de agredir países e povos, nem de abranger cada vez mais área de influência. Kosova em 1999, Afeganistão em 2003, o Iraque em 2004, a Líbia em 2011, as ameaças contra a Síria em 2013 — só não materializadas pola manobra diplomática russa — e uma mais do que previsível próxima intervenção na Ucrânia contra o Donbass antifascista são apenas o seu rasto oficial de sangue e fumo, não por casualidade focando sempre áreas de antiga influência soviética e do velho movimento dos países não alinhados.

Mas a sombra do império é muito mais alargada do que as intervenções militares. Em primeiro lugar, pola imensa rede de bases militares que capacitam a organização para intervir em qualquer lugar do planeta. A autolimitação geográfica originária, a norte do trópico de Câncer, não impede essa expansão da sua infraestrutura: por exemplo, as 23 bases na América do Sul, a maioria delas administradas diretamente polos Estados Unidos em linha com o processo latinoamericano de integração anti-imperialista. A realidade que essas e outras bases revelam é apenas a evidência de a OTAN ser, exclusivamente, a máscara com que os EUA e em segunda instância os seus parceiros diretos europeus agem militarmente muito além da área originariamente definida, em relação direta com o resto de infraestrutura militar norte-americana, que conta com mais de um milhar de instalações de todo tipo repartidas em 63 países, com alcance global.

E o braço continua a se armar e a crescer, colocando tropas em 165 países. Muitas vezes sob guarda-chuvas (só formalmente) das Nações Unidas, ao ponto de se terem tornado confundíveis para muitas pessoas. Outras vezes aproveitando as operações militares para deixar nos territórios intervindos novas instalações, como no Iraque ou no Afeganistão, que abandonam de iure mas onde permanecem de facto, dentro da estratégia de controlo da Ásia Central. E outras vezes com a assinatura de parcerias de segurança negociadas em secreto (via serviços de inteligência) que permitam 1) integrar países neutrais do antigo grupo dos Não Alinhados, com especial atenção à Índia, 2) promover outras associações militares análogas que permitam ultrapassar os limites formais da OTAN (Golfo Pérsico, Ártico, Báltico, Japão), e 3) continuar com a OTANização da ASEAN (Sudeste Asiático) e da União Africana e com o controlo total do Mediterrâneo (apenas quebrado pola base russa na Síria e a saída da Crimeia). O resultado desta fase expansiva, quando se confirmar o passo formal na África e na Ásia do Sudeste, será a integração de mais 60 novos membros em organizações direta ou indiretamente dirigidas polos Estados Unidos e a assinatura, em paralelo, de tratados de livre comércio que permitam a introdução maciça dos produtos americanos de modo a combater a sua própria crise de supremacia económica.

Porém,mesmo com a inquestionável expansão imperial e em meio à fase de máxima aceleração dessas integrações forçadas, continua a ser impossível falarmos de um mundo unipolar. A recuperação de uma posição internacional de força na Rússia pós-soviética e a recente priorização que a China está a conceder às suas relações internacionais após anos de certa introspeção, unido às fluentes relações entre ambas as potências e aos seus interesses comuns neste plano, que não passam de modo nenhum por se submeter a Ocidente, desenham um cenário de blocos antagónicos como não se via desde a implosão da URSS.

Sessenta e cinco anos após a sua fundação, e tendo já demonstrado que o conceito de autodefesa não era mais do que uma estratégia de propaganda polo medo potenciada polos governos capitalistas ocidentais, o que fica claro é que a OTAN continua a fazer o que sempre fez: reforçar e alargar a liderança norte-americana, por diversas vias e sempre de maneira maquiavélica, incluindo falsas revoluções de cores, golpes de Estado ou atos de falsa bandeira como o último ataque a um avião civil sobre território das repúblicas populares do Donbass. O procedimento é claro, circundar a Rússia, isolar a China e, eventualmente, dinamitar o seu novo entendimento. O objetivo também: continuar assegurando o domínio norte-americano por meio da supremacia da força militar.

Óscar Valadares é sindicalista e activista internacionalista en Mar de Lumes.

A Venezuela deve resistir as provocações

o roteiro do imperialismo na Venezuela deveria resultar-nos já perfeitamente conhecido: trata-se do mesmo que já empregaram para as invasões da Líbia e da Síria

Óscar Valadares*

A situação em Venezuela é gravíssima. Não só pelos tiroteios contra a imprensa não favorável a Capriles. Não só pelos ataques a tiros conta centros médicos. Não só pelos incêndios provocados em locais do PSUV, com militantes no interior. Nem sequer pelos assassinatos políticos de militantes e simpatizantes chavistas, que aumentam a cada hora desmascarando a crua caveira do capitalismo e da sua maquinaria imperialista, e que, por si próprios, num cenário menos alienado, deveriam estar a horrorizar a opinião pública do mundo, tão espúria ou inocentemente preocupada pelas liberdades civis e a democracia em abstrato. Não é o mais grave que Capriles e os seus gorilas se tenham lançado ao festim da destruição e da morte anunciando pelas ruas um pretenso fraude eleitoral sem terem sequer solicitado em momento nenhum a auditoria dos votos ao Centro Nacional Eleitoral. Nada disto é o mais grave. Nem sequer o mais triste.

O mais grave é que, nos planos dos seguidores de Capriles, alentados pelos Estados Unidos de maneira explícita e também pela UE, o FMI, o BM e governos pró-capitalistas de maneira mais velada —mais covarde—, a situação não vá deixar de escalar e de se agravar. Por que? porque o estado de excepção que as bandas armadas do capital estão a provocar na Venezuela não é o objetivo, mas apenas a ferramenta. Por outras palavras: o que se procura não é o caos do país, mas que esse caos venha provocar a resposta de um exército posicionado publicamente com o presidente Maduro, de maneira a materializar a escusa perfeita para os “democratas” do primeiro mudo darem a ordem de intervir –leia-se, invadir– a república bolivariana.

Ainda assim, tampouco isto é o mais surpreendente. Porque, nesta altura, o roteiro do imperialismo na Venezuela deveria resultar-nos já perfeitamente conhecido: trata-se do mesmo que já empregaram para as invasões da Líbia e da Síria, e é o que presumivelmente irão empregar para as invasões da Coreia Popular-Democrática e do Irã, que chegarão, mais cedo ou mais tarde, nessa lógica devoradora e insaciável do lucro perante tudo. Enfim: ei a segunda versão do roteiro do Iraque, melhor calculado e com os erros de opinião pública convenientemente corrigidos, e mais operativo do que nunca antes, graças, ademais, à participação nojentamente entusiástica dos meios mainstream (inclusive dos que dizem estar a representar a consciência crítica) que, hoje, apenas falam de “distúrbios” enquanto nos assolam e nos alienam ainda mais com dados sobre as vidas dos tristes mortos da maratona de Boston.

Frente a isto, a Venezuela que decidiu continuar a construção do socialismo bolivariando deve resistir as provocações. O PSUV sabe-o. Haverá tempo para a justiça. O primeiro é, lá, assegurarem a inviolabilidade do país. E é a nós, no exterior, por enquanto, que cabe continuarmos a informar e a difundir a barbarie capitalista, agora na Venezuela, sempre no mundo.

*Óscar Valadares é militante de Mar de Lumes - Comité Galego de Solidariedade Internacionalista

Feijóo à fuga

Feijóo fugido, o governo desaparecido, a troika ocultada, o programa fechado sob sete chaves, o capital a esmendrelhar-se de tanto rir e nós, polo momento, sem as ferramentas que permitam sair deste jogo

Óscar Valadares

Parece que seja cousa dos grandes governantes: é virem as duras e esconderem a cabeça, encerrarem-se num bunker, viajarem às Américas: desaparecer, enfim, que tudo é o mesmo. Às Américas vai Feijóo, que diz ser uma viagem institucional à que a oposição chama eleitoral e que, na realidade, esconde uma fugida das responsabilidades, dos focos e dos microfones. O objetivo último é, embora o despiste geral, libertar-se da má imagem que dá estar o dia todo a sair nas rádios, na televisão e nos jornais visualizando a despreocupada carência de iniciativa política para combater aquela crise com que ele, dizia, ia acabar em 45 dias. Esconder-se é o próprio, mas não só dele.

Escondido está, todo o mundo sabe, o verdadeiro programa político do PP, que se nos vai revelando lentamente, como se se tratar de uma má história publicada por fascículos. Esconde-se o presidente do governo de Madrid, fugazmente saído esta semana passada do seu esconderijo para nos espancar com mais um golpe económico e social e para manusear um códice do século XII num espetáculo ridículo de adoração que, por certo, custou mais de um quarto de milhão de euros de dinheiro público, nosso. Às escondidas vai até a troika, de negro e de gris, polos grises corredores dos ministérios da Fazenda e da Economia. E também se escondem os senhoritos do NGB, que fugazmente, e para surpresa de muitos, saíram para pedir perdão com essa parafernália que no Estado espanhol se está a pôr na moda para salvar os móveis simulando arrependimento polo que sempre se fez e se continuaria a fazer se não fossem as evidências criminais que se nos revelam, cada vez, com maior insistência.

É claro que, de todos modos, de nada serve sair do rocho para pedir desculpas, porque os tecnocratas do BM e do FMI não vão mudar de fim nem de aparência, porque Castellano e os outros ladrões da cova não vão devolver o roubado assim tão fácil nem vão deixar de vender-nos lixo financeiro quando tenham a possibilidade, porque os que anunciaram proteção para o património em mãos da igreja, simplesmente, não o vão devolver ao povo, e porque, se Feijóo saísse a pedir desculpas com aquele famoso contrato com a cidadania na mão, também não terminaria com a indecência do paro, com a injustiça do IVA, nem muito menos com a demolição trágica do Estado social. Ora, a leitura que se deve tirar disso não é só a incapacidade de Feijóo, neste caso. Por trás disso há mais: em primeiro lugar, uma questão puramente ideológica, de visão do problema e de proposição da solução; e em segundo lugar, ademais, uma impossibilidade circunstancial, um constrangimento que impede qualquer iniciativa que mude a situação de raiz em em favor da maioria.

A respeito do problema ideológico, disse um amigo, não há muito, que a única crise que aqui sofremos é a crise da esquerda, e que o resto se chama capitalismo. O que cumpre, portanto, não é sairmos da crise, mas do capitalismo. Mas isso, evidentemente, não o vai fazer Feijóo nem a direita económica de PPSOE, porque a sua fidelidade e a sua crença irracional no capital estão na linha de uma posição ideológica bem determinada: a de quem está conforme com este sistema no que, para já, não há problema, e no que, do seu ponto de vista, a crise é um episódio inevitável e necessário que, como as purgas outrora, limpa dolorosamente os excessos do corpo (neste caso, económico); um processo, uma penitência que deve ser sofrida com resignação, em silêncio, sem trejeitos nem protestos. Com esta posição ideológica, chamar crise a este capitalismo que sofremos é pura circunstância, mandada polo mesmo imperativo eleitoral que obriga a mostrar-se compungido cada vez que se executa mais um curte no ensino, na sanidade, nos salários ou no que for, e a pedir um esforço para sair juntos da crise. Pura aparência.

Em segundo lugar, a respeito do constrangimento circunstancial e em descargo de Feijóo e os seus sequazes, convém notar que, com independência de quem governe, a situação será muito parecida com a que já temos enquanto careçamos de soberania real, enquanto continuemos pegados à ultraliberal UE, que hoje é mais do que nunca dos mercados e dos mercadores, e enquanto tenhamos tolhida polo Estado espanhol a nossa capacidade para pormos em andamento as políticas verdadeiramente incisivas que imaginemos à contra das que nos aplicam.

Em resumo: Feijóo fugido, o governo desaparecido, a troika ocultada, o programa fechado sob sete chaves, o capital a esmendrelhar-se de tanto rir e nós, polo momento, sem as ferramentas que permitam sair deste jogo que já matava milhões na África, na Ásia e na América do Sul, e que agora mata também no primeiro mundo, para surpresa de tantas e tantos.

Óscar Valadares é sindicalista da CIG e militante do MGS