A questom nacional e as vias de rutpura democrática que abre som o principal perigo (e o único real a dia de hoje) que pode pôr em questom o regime postfranquista espanhol.

Breixo Lousada.

oite eleitoral do 20 de dezembro, os dous partidos espanhóis emergentes coincidirom em anunciar umha iminente “segunda transiçom”. Se é certo que imos entrar num processo desse tipo, com a atual correlaçom de forças e com essas referências simbólicas (a restauraçom bourbónica), nada parece indicar que vaia ir-nos -como povo e como classe- muito melhor do que nos foi na anterior. Assumir as nossas debilidades à hora de navegar nessa cojuntura é o primeiro passo, e o seguinte poderia ser analisar as  liçons que podemos extraer de experiências passadas e começar a trabalhar para poder situar-nos após esta complicada e estranha fasse política na melhor posiçom possível e assim afrontar o futuro em melhores condiçons. Para isso, é fundamental caracterizar corretamente os diferentes atores e entendermos o papel de cada quem.

Longe de debates terminológicos, assumo que qualquer leitor/a poderá concordar em denominar como “unionista” a quem manifesta como um objectivo declarado da sua açom política o de “garantir a unidade de Espanha”, mesmo chegando a apresentar-se como a única força realmente capacitada para exercer como freio eficiente do soberanismo. Essa unidade é, de feito, um dos eixos do renovado modelo de “país” que teorizárom em campanha tanto as velhas como sobretodo as novas referencias políticas do progressismo espanhol.

Em contraste com isso, a configuraçom do estado ou a questom nacional em geral nom joga atualmente nengum papel efetivo no discurso diário nem na prática política das forças ditas nacionalistas que optárom por alianças estratégicas com a esquerda unionista. Isso é lógico desde o (seu) ponto de vista de evitar conflitos que ameacem a credibilidade da aposta eleitoral, já que tenhem difícil conciliaçom dous projetos que se supom que remam em direçons opostas num assunto tam transcendental e tam vigente como o dos processos soberanistas. Para evitar esse tipo de problemas, avondou com que umha das partes diluisse ou agochasse indefinidamente os seus supostos princípios e objetivos e se limitasse a dar-lhe um verniz local a projetos trasladados desde Madrid. O demagógico argumento foi o de “priorizar a questom social”, como se em Galiza fosse possível abordar realmente esta à margem da nossa dependência nacional.

O paradoxal é que, ao contrário das suas alianças galegas, nom se pode acusar a Podemos de carecer de um discurso “nacional”, mesmo claramente patriótico. O problema (para nós), é que esse patriotismo do que fam bandeira é o espanhol, tentando resignificá-lo à sua maneira mas reforçando ao cabo o projeto nacional (imperial) do Estado. É, de feito, a primeira tentantiva séria de articular desde fora da direita um discurso de reivindicaçom da ideia de Espanha e de identificaçom com boa parte do seu imaginário. A diferença da esquerda espanhola clássica, os novos atores nom evitam falar de soberania, mas fam-no só a respeito da soberania estatal (Espanha ante Alemanha, ante os “mercados”, etc.). É nessa linha que enmarcam a sua defesa da unidade estatal: umha unidade hipoteticamente mais diversa, amável, plurinacional (a nova palavra-fetiche), mas que a fim de contas formula-se basicamente como antídoto contra o independentismo, particularmente o processo catalám que é hoje a principal ameaça ao regime espanhol.  Isso mesmo manifestava-o bem às claras o porta-voz paralmentar do chamado “grupo confederal” no Congresso, quando dizia que a própria existência do mesmo exemplificava que, frente a quem quer “separar”, eles demostravam que se podiam “tender pontes” e unir Espanha na sua diversidade. Todo isto em presença das suas alianças galegas e catalás, que nom virom oportuno matizar ou retificar tais palavras.

Com este e tantos outros exemplos dos últimos meses fica claro que a defensa do direito a decidir que pontualmente e de forma contraditória figérom esses setores políticos nom tivo outro fim que esse mesmo: o tal “reconhecimento” apresentam-no como a única forma de garantir que Espanha siga unida.Umha cesom necessária, digamos, para assegurar que nom mude nada do fundamental.

Como os papeis termam de todo, o que hai que analisar à hora de posicionar-se ante um ator político nom som os seus documentos, mas a prática política concreta. Sendo assim perguntemo-nos: o unionismo “de esquerda” contribui ou dificulta o avance do nosso projeto nacional? Até onde sabemos, e já que tam habituais som ultimamente as comparaçons da nossa com outras realidades, todos os projetos de emancipaçom nacional que conseguirom triunfar ou simplesmente avançar demostram que fôrom/som só as forças próprias as que construem a liberdade dum povo. A esquerda de ámbito estatal polo geral nom tem contribuido a que esses processos progressem, e de feito fixo mais bem todo o contrário. A trajetória (avances e recuos) dos processos de libertaçom dos povos negados polo estado espanhol nom fai mais que confirmar esta realidade histórica.

Nom se negam possíveis concidências tácticas com esses sectores com os que obviamente temos mais proximidade que com os das forças já plenamente integradas no sistema. Com eles poderemos coincidir nas ruas ou nas instituiçons defendendo pontualmente cousas similares, mas isso nom implica obviar que somos projetos diferentes e nom conciliáveis a nível de alianças estáveis. As alianças servem (na teoria) para reforçar-se mutuamente, e o soberanismo galego se quer seguir sendo tal nom pode contribuir a afortalar o unionismo espanhol, diga-se este de direita ou de esquerda.

Hai hoje vozes (realmente sempre as houvo, e de feito durante bastantes anos chegarom a ser hegemónicas) no quadro do nacionalismo que proponhem adiar, rebaixar ou difuminar a questom nacional à espera de tempos melhores. Nom seria a primeira vez que se fai, contribuindo a desideologizar e destensionar a nossa própria base social. Neste caso, está claro que silenciar a reivindicaçom nacional poderia ajudar a tecer alianças cos sectores unionistas, mas seria umha torpeza fazê-lo justo no momento em que mais à vista está o potencial transformador da mesma. As patronais bancárias deixarom-no claro a poucos dias das eleiçons catalás ameaçando co cataclismo que suporia (para os seus interesses, entende-se) a ruptura da unidade de Espanha. Nengum movimento assim se tinha dado antes, nem sequer, por suposto, existiu ante o possível ascenso de Podemos. É evidente pois que a questom nacional e as vias de rutpura democrática que abre som o principal perigo (e o único real a dia de hoje) que pode pôr em questom o regime postfranquista espanhol como garante dos privilégios dumha oligarquia. Ante esta realidade, trabalhar politicamente para apontalar a unidade estatal numha ou noutra forma é objetivamente reaccionário.

A chave do avance social do soberanismo de esquerda foi manter a indisociabilidade entre libertaçom nacional e social, entre soberanismo e esquerda. Justo neste momento seria letal renunciar a essa aposta, e mais ainda fazê-lo só por puro pánico pre-eleitoral. À vista está o serviço prestado ao país por parte dos sectores ditos nacionalistas que optarom por priorizar as vantagens eleitorais que oferecia umha aliança co unionismo de esquerda, ainda que fosse em favor de enfraquecer o projeto nacional galego.

Cumpre, em conseqüência, enfrentar democraticamente e em todos os espaços os projetos políticos que Espanha oferece (com ou sem aliados autóctones) para o nosso país, por muito que estes venham em novos e atrativos envoltórios. Também o do progressismo espanhol que en forma de novo regeneracionismo pretende fazer parte dessa segunda transiçom. Na primeira, soubemos desenmascarar ante importantes sectores do nosso povo o claudicante papel da esquerda estatal e cimentar as condiçons para um avance sólido nos anos posteriores, baseado sobretodo no trabalho social como prioridade ante o institucional, sem que isso suponha negar a importáncia do segundo. Em base a essa coerência e legitimidade ganhada, o nacionalismo foi ganhando espaços sociais e políticos, muitas vezes em detrimento da esquerda espanhola que até mui recentemente nom soubera achar um revulsivo que lhe permitisse (servindo-se também dos erros do nacionalismo, inegáveis) recuperar terreno eleitoral, e algo menos no social.

Nom é momento de agochar a questom nacional, mas ao contrário: é o momento de -com toda a didáctica necessária-, ponhê-la sobre a mesa do debate político como questom central do nosso tempo. Assumindo que as soberanistas somos a dia de hoje minoria, mas com vocaçom majoritária, vontade que começa por acreditar nas nossas próprias forças e ideias. Sermos soberanistas com princípios e objectivos claros, porque a independência é umha urgência a para a sobrevivência da nossa naçom, mas também porque é a única via de escape ante um regime e um sistema cada vez mais opressivo.

Está por ver como se recompom o cenário nos próximos meses e anos e é complicado fazer previsons numha situaçom tam volátil. Mas, se nom podemos evitar (por agora) umha nova operaçom de recomposiçom do regime e forçar a tam necessária ruptura constituínte, polo menos sejamos quem de sair dela nas melhores condiçons para acumular forças em favor dumha transformaçom digna de tal nome. Os tempos políticos mudam mui rápido e o importante será ter umha organizaçom política legitimada, engraxada, mobilizada e preparada para afrontar as batalhas que virám. Sacrificar esse imprescindível trabalho por urgências eleitorais seria suicida. Para percorrer um caminho, o mais importante nom é a velocidade, mas ter claro qual é o destino.