Adaptar a Sanidade aos tempos

Tem razom o Conselheiro quando afirma querer “adaptar aos tempos o sistema”. Som os tempos em que o centro ocupa-o a última tecnologia adquirida num contrato milionário com Medtronic e nom o doente e os seus determinantes sociais e sanitários. Os tempos da fase neoliberal do capitalismo, em que privatizar é externalizar, recortar é racionalizar e precarizar é flexibilizar.

Álvaro Lamas

A reforma da Lei Galega de Saúde, afirmava em recente entrevista o conselheiro de Sanidade da Junta, chega para “adaptar aos tempos” o nosso sistema sanitário.

Chama a atençom esta afirmaçom, se temos em conta a supressom de 4 áreas sanitarias que implica a reforma. A Marinha, o Salnês, o Barco e Monforte passam assim à categoria de distritos sanitarios, como já eram o Barbança e Cee. Esta reorganizaçom pretende, segundo o governo da Junta, blindar os hospitais comarcais, achegando à cidadania os serviços sanitários.

Em realidade, os centros de decisom nem só nom se achegam, senom que se afastam dos usuários e profissionais, centralizando mais um sistema sanitário que pede umha maior descentralizaçom. Assim, mais competências e recursos serám concentrados em hospitais como os de Lugo, Santiago ou Pontevedra, vaziando de conteúdo os hospitais comarcais em detrimento das populaçons usuárias. Porque nom é o mesmo para uma pessoa de Barreiros deslocar-se a Burela do que fazê-lo a Lugo.

A razom pola que estas 4 áreas som suprimidas é a adequaçom das actuais 11 áreas sanitárias às 7 Estruturas Organizadas de Gestom Integrada (EOXIs). Estas estruturas fórom criadas em 2010 com o objecto de unificar a gestom dos recursos sanitários, incluíndo a administraçom de hospitais e centros de saúde, existentes em 7 ámbitos territoriais: A Corunha, Santiago, Ferrol, Ourense-Verim-Barco, Ponte Vedra-Salnês, Vigo e Lugo-Monforte-Cervo.

A criaçom das EOXIs supujo a supressom das Gerências de Atençom Primária (XAP), convertendo o nível assistencial da atençom primária em mero apêndice da hospitalar. Pensemos na dispersom da populaçom galega e, em consequência, dos centros de saúde do nosso país. Pensemos na dificuldade adicionada que supom para todos esses centros de saúde à hora de obterem um reparto justo de recursos a eliminaçom dos organismos que os geriam de forma coordenada, passando a depender do âmbito dos hospitais.

Por sinal, a maioria dos profissionais de Atençom Primária, assim como as sociedades científicas e sindicatos mostrárom-se contra a supressom das Gerências de AP, e os seus temores tinham fundamento.

Hoje contamos com um sistema de AP que tem na precariedade laboral a sua norma, com agendas colapsadas e recursos minguantes. Prova disto som a legiom de substitutos que o SERGAS tem assinando até 15 contratos por mês, sem cotizaçom de fim de semana, sem direito a férias pagas ou a dias livres. Nom em poucos casos chegam a dar-se jornadas ilegais de até 31 horas de trabalho, encadeando consulta de manhá, guardas e novamente consulta. Que dizer da insuficiente reposiçom de pessoal em caso de baixa ou reforma, com demoras de meses que interferem na continuidade assistencial.

A situaçom nom é melhor nas urgências extra-hospitalares dos Pontos de Atençom Continuada. Em pé de guerra é como afirmam estar os profissionais destes centros, nas suas mobilizaçons actuais contra a disparidade de condiçons até dentro da mesma área, por uma maior dotaçom de recursos para garantir a qualidade na assistência.

Nom estranha, nestas circunstáncias, a tendência crescente a buscar melhores condiçons no estrangeiro. Nom só diferenças retributivas motivam esta decisom, também maiores tempos de atençom por paciente, com as consequências que isto tem na qualidade assistencial. Pouco futuro tem a nossa Sanidade se quem nela trabalha nom pode consolidar um projecto vital, se a melhor opçom é a emigraçom.

Tem razom o Conselheiro quando afirma querer “adaptar aos tempos o sistema”. Som os tempos em que o centro ocupa-o a última tecnologia adquirida num contrato milionário com Medtronic e nom o doente e os seus determinantes sociais e sanitários. Os tempos da fase neoliberal do capitalismo, em que privatizar é externalizar, recortar é racionalizar e precarizar é flexibilizar.

Este plano de precarizaçom progressiva, desmantelamento deliberado e enfraquecimento metódico do nosso sistema de saúde tem-nos que atopar em pé de guerra, como os profissionais dos PAC. Porque só assim poderemos clausurar o tempo da perda de direitos e serviços públicos em que o actual sistema socio-económico nos instala e abrir um novo em que o recuperemos todo.