Se bem os avanços atingidos em matéria de direitos e inclussão social são indiscutíveis, esta institucionalização, esta oficialização dos protestos, tivo, não obstante, um preço.

Daniel Barral

Mais um ano achega-se o 28 de Junho, dia do Orgulho, data marcada com um círculo vermelho no calendário reivindicativo da comunidade GSDI (Géneros e Sexualidades Diversas e Intersexo), todas aquelas que nos desmarcamos dos limites normativos do género e a sexualidade ou que vemos os nossos corpos patologizados pelo discurso médico sobre o sexo.

Mais um ano rememoramos aquela madrugada de 1969 em que o Stonewall Inn fijo arder a noite nova-iorquina, em que nos revoltamos contra o braço policial do sistema patriarcal, em que fomos conscientes de que só o medo nos impedira até então exigirmos dignidade e respeito. Fomos as trans, as maricas, as bolheras e as dragqueens as que a golpe de tacão e pluma nos abrimos um oco na praça pública, rejeitando para sempre a escuridade clandestina das ruelas e os bares soterrados.

Mais um ano vemos como o que deveria ser um dia de celebração da nossa existência, de seguirmos vivas e combativas frente às forças que teimam em nos destruir e nos invisibilizar, e de luta também, de protesta contra as cadeias que nos atam e de repulsa contra as instituições que nos patologizam, tem-se convertido em muitos casos num macro festival com desfile de carroças incluído.

Desde os primeiros anos do movimento, a finais do século XIX, o ativismo GSDI tem passado por uma longa evolução. Achamos precisamente nos acontecimentos de Stonewall um ponto de inflexão, já que é à calor das propostas da contracultura, dos feminismos e dos movimentos pelos direitos civis da sociedade estadunidense dos anos 60 que por primeira vez se produzem enfrontamentos diretos com as forças da lei a tal escala. O movimento pelas liberdades sexuais e de género vira fundamente contestatário e combativo num primeiro momento, exigindo, a medida que se diversifica, igualdade, justiça e direitos, como parte dumas revindicações marcadas pela epidemia da SIDA nos anos 80.

Porém, chegam os anos 90, e com eles começa um processo de institucionalização da luta, com o matrimônio igualitário como objetivo central, objetivo atingido no Estado Espanhol em 2005. Se bem os avanços atingidos em matéria de direitos e inclussão social são indiscutíveis, esta institucionalização, esta oficialização dos protestos, tivo, não obstante, um preço.

Mais um ano vemos como o espaço que tanta sangue e tantas lágrimas nos custou ganhar é-nos de novo negado; como somos condenadas uma outra vez a vagarmos nas margens da sociedade, enquanto as olhadas são dirigidas cara a modelos de existência que o patriarcado pode tolerar: gais delgados, bem vestidos e educados ou lesbianas de feminilidade normativa, ambos grupos totalmente castrados no sentido político da palavra, ambos grupos perfeitamente assimiláveis à lógica do capitalismo rosa.

No momento em que a burguesia descobriu o beneficio que podia tirar deste novo mercado, o euro rosa, assinou um novo contrato com o patriarcado e marcou um perigoso horizonte: a nossa aceitação passa agora por sermos dóceis, por sermos consumidoras de beleza normativa e espaços e formas de ócio especialmente desenhadas, por escolher de novo entre duas opções igualmente inócuas e limitadoras dum marco binário, homem gay ou mulher lesbiana; por sermos, em definitiva, uma engrenagem submissa do mecanismo capitalista e patriarcal. Em palavras do agora extinto coletivo Maribolheras Precárias da Corunha, “[O capitalismo rosa] fijo-nos mais visíveis em tanto que consumidoras, mas pouco mais.”

Não se nos permite questionar o género, a instituição da família, a suposta objetividade da ciência médica ou os modelos afetivo-sexuais; não se nos permite reivindicar as nossas liberdades além dum espetáculo monitorizado pelas empresas e os meios de comunicação.

Nestes tempos de dúvida, em que se nos tende, salvadora, a mesma mão que nos quer roubar o ar, é mais necessário que nunca rememorarmos quem somos e de onde vimos. Sylvia Rivera, um dos nomes de Stonewall, era uma mulher trans, de cor, migrante, prostituta, sem teto e drogodependente, muito longe da homossexualidade aburguesada que hoje se arvora. Ela lutou contra a guerra do Vietnã, contra o estigma da SIDA, pelos direitos das prostitutas; no cruzamento de quase todas as opressões imagináveis, ela rebelou-se contra a opressão de classe, racial, de género; rebelou-se, em definitiva, contra tudo.

Num protesto antirracista pela morte dum rapaz afro-americano em que as manifestantes chamavam os polícias de maricas, Rivera achava-se entre a multidão. Molesta, pronunciou umas palavras que quase cinquenta anos depois mantêm a mesma força: “Não, as maricas estamos aqui com vós”. E aginha mudarom os gritos.

Esse é o espírito do primeiro 28 de Junho e o espírito que deve inspirar cada um dos nossos dias, um espírito revolucionário e de solidariedade. A questão sexual e de género deve ir da mão da questão de classe e da questão nacional e de todas as questões. Unicamente umas coordenadas galegas e de classe podem vertebrar a nossa luta GSDI e à inversa.

Mais um 28 de Junho, quando rejeitamos o patriarcado, rejeitamos também Espanha e o capital; quando rejeitamos Espanha e o capital, rejeitamos também o patriarcado.