Se Foucault assinalava que ali onde há poder, há resistência, também o contrário é certo: ali onde os povos reagem, o imperialismo conspira para fulminá-los, ainda que tenha que abandonar os seus próprios “filhos de puta”, segundo a célebre definiçom de Roosevelt

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José Emílio Vicente

Zhou Enlai participava em 1955 nas negociaçons de paz da guerra da Coreia, quando um jornalista francês lhe perguntou que opinava da Revoluçom Francesa, ao que o primeiro ministro chinês respondeu: “Ainda é cedo de mais para dizê-lo”. Salvando as distáncias imagináveis, pode que dentro de dous séculos ainda continuemos a discutir -como ainda fai o controvertido debate historiográfico gerado desde 1789- sobre as revoltas árabes que abalaram o mundo neste 2011, nascendo onde e quando nada se aguardava agás resignaçom e torpor. Regimes intactos durante três décadas toparam-se de súpeto convertidos num novo Polifemo, enfrentados a um inimigo que nom podem nem sequer nomear, de jeito que muitos déspotas desprezíveis se sentiram por fim indefensos ante a mobilizaçom do seu próprio povo em acçons pacíficas de massas.

No entanto, existe umha permanente tentaçom de subestimar as revoltas: som explicadas só em funçom de causas imediatas (desemprego, pobreza, repressom) e o seu desenvolvimento atribui-se quase em exclusiva à Internet. Poucas vozes se atrevem a enquadrar as revoltas em levantamentos populares de profundidade, multifacetados, nom fascinados por Europa e EEUU senom inspirados na história anti-imperialista do mundo árabe, com várias dimensons sociais e políticas integradas na luita. Mesmo Henry Kissinger reconheceu a tradiçom reprimida ao afirmar que “estávamos tam acostumados a Sadat e a Mubarak que esquecemos durante trinta anos que Egito era umha fonte de actividades nacionalistas anti-estadounidenses”.

A aliança dos regimes árabes com Ocidente baseou-se em privatizaçons massivas, o saqueio de recursos energéticos e a presença de bases militares, assi como a submissom ao papel de Israel na regiom. A nível social progrediu umha polarizaçom intensa que tinha nos seus extremos umhas ditaduras corruptas e multimilionárias, consumidoras de produtos de luxo e devotas da arquitectura opulenta, e a maioria da populaçom imersa na pobreza e no desemprego, particularmente a juventude, frequentemente relegada à economia informal, sem que existissem vieiros reais de participaçom política. As promessas do neoliberalismo sobre a progressiva filtraçom da riqueza nom levaram mais que a umha maior concentraçom, agravada com a crise económica internacional, e as pressons da UE tivérom como resultado a limitaçom da válvula de escape tradicional que representava a emigraçom. Assi, as desigualdades viram-se agravadas polo fiel alinhamento com as políticas do FMI e a sua decissom de pisar o acelerador na globalizaçom selvagem e desreguladora.

As revoluçons triunfantes na República Tunisina e em Egito nom estám isentas de contradiçons, senom carregadas da história recente, e nelas participam diferentes sociais, nom um povo puro e revolucionário inexistente em nengum lugar do mundo. Mas nom parece que vaiam ficar num cámbio de títere que mantenha os titeriteiros, numha transiçom que represente um novo exercício de gatopardismo no que “tudo mude para que nada cambie” -como sugeriu o presidente do governo espanhol, que pujo a “transiçom” como modelo- como demonstra a vontade de levar os dirigentes ante os tribunais para que respondam polos seus crimes. Até o momento, o movimento popular mostrou-se vigilante para nom permitir um retrocesso, e apesar do complexo contexto (em Egito nom houve mais remédio que conceder ao Exército o poder temporariamente) afrontam agora o repto de construir forças sociais e políticas que transformem os seus Estados.

No entanto, as mesmas potências que conspiraram para que nom mudara o estado das cousas, agora tentarám redirigir todos os cámbios ao seu favor. Se Foucault assinalava que ali onde há poder, há resistência, também o contrário é certo: ali onde os povos reagem, o imperialismo conspira para fulminá-los, ainda que tenha que abandonar os seus próprios “filhos de puta”, segundo a célebre definiçom de Roosevelt. De facto, Gadafi convertera-se há tempo num aliado firme de Ocidente, até o ponto de cooperar ativamente com a campanha de Washington contra grupos insurgentes, incluídos palestinianos de esquerda, e na criminal política migratória da UE, sem esquecer a privatizaçom de centros de empresas e outras concessons.

O esquema de outros países árabes de insurreiçom do “povo contra o tirano”, por meio de mobilizaçons de massas e dirigido desde dentro, tem umha aplicaçom mais difícil ao caso líbio. Sem que menosprezemos outros factores, as causas inmediatas e objetivas nom parecem inspirar um descontento social da populaçom comparável ao de Egito e Tunísia. Líbia contava com umhas melhores condiçons sociais (umha alta esperança de vida e o melhor Índice de Desenvolvimento Humano de África, melhores sistemas de saúde e educativos) e, apesar da extraordinária cobertura mediática, nom vimos massas desarmadas a tomar as ruas. Muito ao contrário, umha parte do exército decidiu declarar-se em rebeliom. Tampouco se tratou dum movimento fundamentalmente endógeno. O constituído Conselho Nacional de Transiçom, rapidamente reconhecido por Ocidente, nom só recebeu apoio militar senom também créditos de países ocidentais respaldado -ironicamente- polo fundo soberano de Líbia. Os Estados europeus, que se dim desprovidos de recursos para a educaçom, a sanidade, as pensons ou os salários, nom duvidam em destinar umha cantidade imensa de dinheiro -Espanha ampliou outros 43 milhons de euros recentemente- para financiar a sua guerra.

Se este esquema se impom é pola propaganda, fiel à sua cita com os preparativos da guerra. Fomos alarmados por matanças da populaçom civil e acusaçons de genocídio mas o banho de sangue nunca pudo ser corroborado. Assi, nom apareceram nunca pegadas dos supostos bombardeios de Bengasi e Trípoli, mas si puidemos ver um aviom da força de Gadafi abatido polos insurgentes no meio dum cessar-fogo (o que teria demonstrado que continuava a atacar a sua populaçom) para saber ao dia seguinte que o caça era dos rebeldes e fora abatido polos seus próprios companheiros. Ou assistimos à apariçom de fossas comuns em Tadjoura, e que resultaram ser um cemitério. A hegemonia acadada por esta propaganda no nosso entorno é tal que a protesta popular está minimizada, e o governo espanhol nem sequer tivo que respeitar os procedementos acordados para lançar o exército a massacrar líbios, o que nom impediu umha maioria imensa no Congreso, com a minúscula excepçom de três deputados, entre eles os nacionalistas galegos.

O cinismo nom tem cancelas: Os últimos precedentes de intervençom humanitária dos EUA e a UE som o protectorado neocolonial de Kosovo e a imposiçom de um regime mafioso, com tramas de tráfico de órgaos humanos; a selvagem invasom do Iraque com um milhom de mortos, quatro milhons de deslocados e a destruiçom de toda umha sociedade; e a gigantesca catástrofe humanitária no Afeganistám, só nos últimos doze anos. Curiosamente, cada lugar onde os EUA e a UE tenhem interesses vem a coincidir com um grave problema que só pode ser resolto por umha intervençom exterior. Ao mesmo tempo que Washington e Paris chamam a derrocar Gadafi continuam a apoiar a repressom dos Khalifa en Bahrein, Buteflika em Algéria, Saleh no Iemen, Mohamed VI en Marrocos, o rei Abdalah en Jordánia ou os Saud en Arabia (Saudí, precisamente). Os agressores, os mais ricos do mundo, padecem de umha fame que só se sacia pola rapina de recursos, num mundo sumido numha grave e silenciada crise energética, além de defender outros interesses estratégicos. Como dizia Jean Jaurès, o capitalismo trai em si a guerra como a nuve trai a tempestade.

Em definitiva, o que acontece na Líbia nom é tanto umha revolta contra o tirano como umha agressom neocolonial, unha nova e arrogante mission civilatrice contra o antigo aliado, justificada em base ao suposto “direito de intervençom humanitária”, princípio de extrema flexibilidade que pode ser esgrimido para legitima qualquer ingerência militar. O ataque humanitário já expulsou a centos de milhares de trabalhadores, destruiu infra-estruturas claves para o país, e, com certeza, matou a muitas mais pessoas das que supostamente estava a salvar.

Toda a panóplia propagandística nom significa que nom exista descontento, protestas reais, anseios de umha transformaçom popular contra o governo de Gadaffi. Organizaçons tam combativas como o Frente Popular de Libertaçom de Palestina (FPLP) pronunciaram-se com dureza neste sentido. Nom obstante, isto nom justificaria em absoluto que ignorássemos a situaçom concreta e equiparássemos as responsabilidades de agressor e agredido. Só os líbios tenhem direito a construír o seu futuro, esse direito nom pertence às potências imperiais para mudar um peom por outro à vez que arrasam e espoliam o país.

Nom obstante, ainda é cedo de mais para saber se os líbios serám capazes de superar tanta barbárie. E também é cedo, ainda muito, para compreender a autêntica dimensom dos cámbios desatados no mundo árabe, mas a história, apesar de Fukuyama, nom remata nunca; umha história que sempre será a da rebeliom, mas também a da guerra, no entanto os povos do mundo nom despejemos tam negros nevoeiros como os que padecemos.

José Emílio Vicente