A reacçom popular contra a guerra do Iraque há mais dumha década nom chegou a questionar a existência da OTAN e a continuidade do seu longo historial de ingerência e agressom.

José Emílio Vicente

No momento da fundaçom da OTAN, um senador norte-americano, Tom Connally assegurou que o seu tratado de constituiçom nom instituía umha aliança militar, senom umha uniom contra a guerra mesma, e mesmo assegurou que se tratava do "oposto dumha aliança militar". Kissinger reconhece no seu livro "Diplomacia" que nengum estudante de história aprovaria de realizar essa mesma valoraçom, e que em poucas ocassons as alianças militares nomeiam os países contra as que se dirigem, senom que descrevem as condiçons que explicam a sua conformaçom. Era innecessário ponher nome ao inimigo quando este era tam bem conhecido -e formidável- mas a OTAN, instrumento privilegiado do imperialismo estado-unidense, nom só nom dessapareceu trás o sumiço do seu principal rival, senom que ampliou os seus associados, as suas funçons e os seus espaços de actuaçom. Só aplica a liçom de realismo político que os atenienses ensinaram aos melios no 416 a.C. sobre as razons do direito quando nom existe igualdade -"os dominadores imponhem o possível e os débis sometem-se"-, umha ensinanza repetida incessantemente na história e que Clausewitz resumiria ao definir a guerra como um simples acto de violência que obriga ao inimigo a se submeter à vontade alheia.

No entanto, mudou notavelmente a retórica justificativa. A guerra contra o terrorismo, as revoluçons de cores, o direito de intervençom humanitária, a defesa da democracia, som algumhas das fibras do imperialismo militar contemporáneo. A linguagem retorce-se  mas o legado som as maiores crises da história recente, a realidade que apenas podemos reter entre a avalancha de informaçom diária: massacres contra as povoaçons civis e toda caste de crimes de guerra; milhons de refugiados externos, que pelejam depois contra as cínicas fronteiras, leis e polícias dos seus agressores para atopar umha guarida; violência geralizada e sectária; desmantelamento dos Estados e as instituçons sociais prévias; espólio dos recursos naturais e materiais, extremadamente ricos, por medio de máfias  e oligarquias, mesmo teocráticas; destruiçom da cultura, património e memória histórica dos países atacados.

E o próximo inimigo já tem nome. A inminente ofensiva da Aliança Atlántica vai-se desenvolver em Sorotan,  que nom é membro da aliança mas enfrenta-se a problemas internos e à ameaça dum Estado vizinho mais poderoso. Neste pequeno país de Cerasia dilucida-se um conflito entre Kamon e Lakuta, que tem a sua origem no control dos acuíferos e da água, devido à desertizaçom, ao desecamento dos aquíferos e em última instáncia ao cámbio climático. Segundo a OTAN, Lakuta rejeita a arbitragem internacional, polo que se fai preciso enviar quase 40.000 militares para invadir o Sorotan.

O país e o conflito som fictícios, mas nom os tambores de guerra, os disparos dos fuzís ou os passos dos soldados. Entre o 28 de setembro e o 6 de novembro, mais de 30.000 militares participarám da operaçom Trident Juncture em três Estados do sul de Europa, o espanhol, Portugal e a Itália. Estas manobras, o maior exercício militar em décadas, involucrarám a máis de 24.000 militares, mobilizarám maquinária militar por terra, mar e aire, empregarám armamento real e terám uma alta visibilidade.  A OTAN deixa claro, mesmo nos seus treinamentos, que nom pretende só defender os seus membros de eventuais agressons, senom defender os seus interesses lá onde estejam em jogo. A narrativa é parte fundamental desta guerra, e a OTAN preocupa-se de enfatizar o seu compromisso com os direitos humanos, o papel de agressor dum terceiro Estado e a violaçom do direito internacional, mesmo com a inevitável cumplicidade de diversas ONG's convidadas a participar na operaçom. Este cenário de crise, que pretende provar a Força de Reacçom da OTAN (NRF), tem muito en conta tanto a posiçom geoestratégica russa, e eventualmente a chinesa, como a situaçom no sul do Mediterráneo e outros cenários como a Síria e Irám, a área do Sahel ou o golfo de Guiné.

O governo de Madrid, com quatro bases norte-americanas desde os 50, está a reforçar nos últimos anos os seus compromissos com a aliança à que pertence desde 1982, e com a que colabora em operaçons em Afeganistám, Líbia, Iraque, Kosovo, no Báltico -com caças nas proximidades de Rússia- ou na fronteira síria com o desplegamento de míseis balísticos, ademais de comprometer-se a instalar novos centros de operaçons aéreas e terrestres em Torrejón e Bétera. Assim, Espanha pretende incrementar a sua achega militar e financeira a este bloco militar, em contraste com o maior recurte  experimentado em servizos sociais, em educaçom ou sanidade -a OTAN aspira a que os Estados membros aumenten o seu orçamento de defesa até un 2% do seu PIB, o que representaria duplicar o gasto espanhol. Queiramos ou nom, somos já parte desta guerra global e permanente, e mesmo a Brilat, com base em Figueirido, terá um papel na Trident Juncture.

A reacçom popular contra a guerra do Iraque há mais dumha década nom chegou a questionar a existência da OTAN e a continuidade do seu longo historial de ingerência e agressom. Polo contrário, esta aliança arvora-se o direito de atacar em qualquer país do mundo, com escusas mínimas de fabricaçom de conveniência. A invasom do Sorotan prefigura as guerras e as vítimas reais do futuro.  Lakuta, agressor punido, é só a metáfora precisa: um país que nom existe porque pode ser qualquera; um Estado que nom conhecemos, que nom situamos nem no mapa nem em continente algum polo momento, do que nom sabemos nada em realidade, mas que rapidamente se transforma em inimigo ante o que toda resposta é sempre moderada.  Se prezamos a paz, a liberdade e a soberania, se de verdade somos quem de nos ponher na pel de todos os que padecem a guerra e a injustiça, nom deveríamos calar ante as impunes rotinas do crime, contra a institucionalizada vontade do imperialismo imposta pola força.